Duas gotas de chuva atingiram gêmeas a pequena poça formada no parapeito da janela. A água estremeceu, as duas ondas se sobrepuseram e sumiram juntas, como haviam aparecido. A chuva insistente durante toda a semana começava a me irritar ligeiramente.
Eu fitava as paredes como se elas fossem remediar meu tédio; como se as rachaduras fossem começar a desenhar histórias para despertar a minha curiosidade. Um exercício autista de pseudo-solidão. Cada parte isolada do cômodo despertava a minha atenção como se minha visão fosse feita de lentes fotográficas: achava um detalhe, focava, guardava na memória, esquecia.
O vaso de flores me chamou atenção. Os trovões faziam a água de mover como as ondas formadas pelas gotas amantes da janela. Há dias havia pouca luz no quarto, e as flores começaram a murchar. Havia uma roda de pétalas cor-de-rosa ao redor de vaso. Apenas duas pétalas despreocupadas flutuavam suavemente pela água. Dançavam ao ritmo das trovejadas.
Indiferentes. Livres. Sem culpa. Como se nunca tivessem pertencido à flor alguma e apenas vivessem para rodopiar pelo vaso.
Acordei da letargia causada pela contemplação do vaso. O dia cinza me deixava em estado catatônico. Uma sensação tão intensa de fome que me impedia de comer. Como se houvesse ar demais no quarto e isso fosse sufocante. Havia algum pensamento a mais que me causava certo incômodo e eu não sabia onde ele estava dentro de minha cabeça. Uma leveza tão grande de consciência que me impedia de levantar da cadeira. Elegantes contradições formando-se e se dissipando em minha mente.
É quando se chega nesse ponto que você prefere começar a fazer parte dessa composição. Não por real tristeza, mas apenas pela beleza de completar um quadro tão melancólico. Em um ímpeto puramente estético. Uma singela vontade de buscar uma foto que me traria boas más lembranças ou ouvir uma música que me desse algum aperto no peito.
Quando os meus pensamentos me cansaram, voltei a olhar o vaso. E senti muita inveja. É tão simples. Ser pétala. Ser gota. Ser onda. E esquecer ter sido flor, nuvem, água. Porque afinal, tudo sumirá. Tão melhor ser leve. Não almejar o peso, a necessidade inconveniente de marcas.
Tão mais feliz seria se simplesmente tudo pudesse ser como duas pétalas copulando em um vaso d'água.
*estilo um pouco diferente do meu estilo habitual, mas agora só consigo escrever assim, hehehe... escrito há muito tempo
sábado, 25 de outubro de 2008
Tales of doom
Faz um tempo que não posto, mas continuo escrevendo. Na verdade, é um projeto conjunto de escrita, recebi aval de um ou outro autor para publicar histórias aqui, então é possível que apareçam textos que não são meus.
Esse projeto é o Tales of Doom. Explico. Quatro pessoas num bar notam um curioso vaso de flores e imaginam que "duas pétalas copulando num vaso d'água" seria um bom título para um conto. Lançado o desafio. Os quatro escreveram um texto com esse título, cada um com sua abordagem, seu estilo. Desde então, novos títulos foram criados, e lá vamos nós!
Os posts dessa série serão devidamente sinalizados.
*doods! isso é muito massa de fazer!
Esse projeto é o Tales of Doom. Explico. Quatro pessoas num bar notam um curioso vaso de flores e imaginam que "duas pétalas copulando num vaso d'água" seria um bom título para um conto. Lançado o desafio. Os quatro escreveram um texto com esse título, cada um com sua abordagem, seu estilo. Desde então, novos títulos foram criados, e lá vamos nós!
Os posts dessa série serão devidamente sinalizados.
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