sábado, 25 de outubro de 2008

Tales of doom - Como duas pétalas copulando dentro de um vaso d’água (VERSÃO DA BIA)

Duas gotas de chuva atingiram gêmeas a pequena poça formada no parapeito da janela. A água estremeceu, as duas ondas se sobrepuseram e sumiram juntas, como haviam aparecido. A chuva insistente durante toda a semana começava a me irritar ligeiramente.


Eu fitava as paredes como se elas fossem remediar meu tédio; como se as rachaduras fossem começar a desenhar histórias para despertar a minha curiosidade. Um exercício autista de pseudo-solidão. Cada parte isolada do cômodo despertava a minha atenção como se minha visão fosse feita de lentes fotográficas: achava um detalhe, focava, guardava na memória, esquecia.


O vaso de flores me chamou atenção. Os trovões faziam a água de mover como as ondas formadas pelas gotas amantes da janela. Há dias havia pouca luz no quarto, e as flores começaram a murchar. Havia uma roda de pétalas cor-de-rosa ao redor de vaso. Apenas duas pétalas despreocupadas flutuavam suavemente pela água. Dançavam ao ritmo das trovejadas.
Indiferentes. Livres. Sem culpa. Como se nunca tivessem pertencido à flor alguma e apenas vivessem para rodopiar pelo vaso.


Acordei da letargia causada pela contemplação do vaso. O dia cinza me deixava em estado catatônico. Uma sensação tão intensa de fome que me impedia de comer. Como se houvesse ar demais no quarto e isso fosse sufocante. Havia algum pensamento a mais que me causava certo incômodo e eu não sabia onde ele estava dentro de minha cabeça. Uma leveza tão grande de consciência que me impedia de levantar da cadeira. Elegantes contradições formando-se e se dissipando em minha mente.


É quando se chega nesse ponto que você prefere começar a fazer parte dessa composição. Não por real tristeza, mas apenas pela beleza de completar um quadro tão melancólico. Em um ímpeto puramente estético. Uma singela vontade de buscar uma foto que me traria boas más lembranças ou ouvir uma música que me desse algum aperto no peito.


Quando os meus pensamentos me cansaram, voltei a olhar o vaso. E senti muita inveja. É tão simples. Ser pétala. Ser gota. Ser onda. E esquecer ter sido flor, nuvem, água. Porque afinal, tudo sumirá. Tão melhor ser leve. Não almejar o peso, a necessidade inconveniente de marcas.
Tão mais feliz seria se simplesmente tudo pudesse ser como duas pétalas copulando em um vaso d'água.


*estilo um pouco diferente do meu estilo habitual, mas agora só consigo escrever assim, hehehe... escrito há muito tempo

Tales of doom

Faz um tempo que não posto, mas continuo escrevendo. Na verdade, é um projeto conjunto de escrita, recebi aval de um ou outro autor para publicar histórias aqui, então é possível que apareçam textos que não são meus.

Esse projeto é o Tales of Doom. Explico. Quatro pessoas num bar notam um curioso vaso de flores e imaginam que "duas pétalas copulando num vaso d'água" seria um bom título para um conto. Lançado o desafio. Os quatro escreveram um texto com esse título, cada um com sua abordagem, seu estilo. Desde então, novos títulos foram criados, e lá vamos nós!

Os posts dessa série serão devidamente sinalizados.

*doods! isso é muito massa de fazer!

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Evil, evil kitty

* tema sugerido por adugeanos...

Voltando novamente às peculiaridades da minha personalidade (não vistas desde os posts Chuva e Vermelho). Na verdade, não tão peculiar assim. E eu vou mudar de assunto no meio, então whatever.


Gatos são uma paixão muito antiga também (o que dá pra perceber pelo título do blog, enfim). Estereótipos batidos de indepêndencia, frieza, agilidade, sensualidade, blábláblá, agora eu passo. Pego o meu preferido (também batido) pra finalmente deslanchar esse texto: mistério.

Porque gato, é claro, um bicho misterioso. Eles não são cachorros que você estampado na cara (e em toda a linguagem corporal deles) o que querem. Gatos fazem o que dá na telha. Como desconfiar que aquele gatinho fofíssimo dois minutos depois estaria dando dentadas na sua canela? De coisa fofucha à evil, evil kitty em dois toques.

É meio que com pessoas também. Cascas contam muito pouco. E daí a gente entra no outro blábláblá do Freud e suas projeções e tal. Não estudei psicologia pra saber, mas às vezes quem projeta essa imagem não é a cabeça do interlocutor, mas o próprio lobo em pele de cordeiro. Aliás, isso é bem recorrente.

E o grande problema é que você acaba se definindo por uma imagem que você criou, que o outro percebeu e te falou e você toma como verdade. Deu pra entender? É como se você acreditasse na sua própria mentira porque alguém achou que era verdade. O grande problema é não saber mais quando é mentira.

Nesse ponto, todo mundo é um pouco esquizofrênico (ou não? sou só eu? ok. tá certo). Uma pequena Matrix íntima, dal nenhuma pílula-que-cor-que-seja irá te soltar.

Por isso, você deve desconfiar. De gatos e de pessoas misteriosas. E de pessoas quietas demais, ou espontâneas demais. Aliás, parafraseando sábio Fox Mulder (hehe) "Trust no one". Por que tudo afinal pode e será mentira quando tiver a chance. Uma grande encenação, quando a maioria das pessoas gostaria de estar nas coxias.

Aliás, só pra ser mais chata. Tudo é uma absoluta convenção. Por isso é tão fácil que uma mentira se torne verdade. E vice-versa. Esqueça o que eu disse e siga como está. Se tudo é convencionado, tudo o que você fizer, vai continuar tudo na mesma anyway.

Tudo é mentira. Nada é mentira. Como saber? Por que saber, afinal?


* sim, eu sou uma evil, evil kitty... hehe... e sim, férias me deixam bem doida, quem disse que eu escrevo pra vocês, hein? hein?

domingo, 18 de maio de 2008

Nevermind...

- Fica combinado assim, então?

- Pode ser; o que você quiser...

- Sério? Mas, mas...

- Nah, tudo bem. Sério.

- Eu tinha só mais uma pergunta...

- Diga.

- Ah, nevermind...


* tiöp assim, não faça isso...

terça-feira, 8 de abril de 2008

Um singelo resuminho autista do ano de 2008 so far...




















P.S.: nao era esse o post, mas dane-se... esse está divertidinho...
espero que o blogger reconheca o cmyk...

*Proxima postagem: sei lah, o que der na telha... chega dessa frescura...

sábado, 22 de março de 2008

Tiranas de todo o mundos, uni-vos!

Não há maior castigo para uma mulher do que o poder. Abrahan Lincoln (e cito essa frase muito corriqueiramente) uma vez disse que “para testar o caráter de um homem, basta dar-lhe poder”. Ele esqueceu das mulheres. Erro comum, já que em sua época dar poder a uma mulher era incumbi-la de decidir o cardápio do jantar. Readaptado esse ditado poderia ser “para testar a fibra de uma mulher, confine-a ao poder”.

Feliz e infelizmente os tempos mudaram. Os homens continuam colocando sua dignidade ante o poder. As poucas mulheres que o conseguiram, simplesmente definham. Como sempre. Só que de uma morte lenta e dolorosa rumo a solidão.

Ter poder é ser sozinho. É ter olhos em sua nuca o tempo todo. É ter rostos indignados voltados para a sua frente, esperando a misericórdia de uma decisão. É afogar-se em um mar revolto de responsabilidades. É ver o tombo eminente da perspectiva de uma montanha.

Uma mulher com poder é tudo isso. Adicionado à desconfiança. Adicionado à ameaça de que alguém use sua própria emotividade contra você. Adicionado à falta de respeito dos homens que almejam o seu patamar. Adicionado às suspeitas das mulheres que acham que suas conquistas são fruto de ações escusas.

Donzelas de ferro as chamam. São mais que isso. São feitas de ferro, fogo e rocha. Incapazes de ruir. Capazes de reprimir as próprias emoções em nome de um ideal.

Um antigo ditado espanhol diz que “por trás de todo grande homem há sempre uma mulher”. Por trás de toda grande mulher, não há nada, exceto suas próprias pegadas.

*Próxima postagem: O tempo

P.S.: saiu um pouco tarde, seria perfeito para o dia 8/03, dia do “desculpa-ferramos-com-voces-mas-olha-um-presentinho-pra-remediar”. Sim, eu sou feminista e feminina ao mesmo tempo. Uma coisa não anula a outra.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Rosas Amarelas

em homenagem a Odete Wolanski, eterno cisne, a quem devo inúmeras rosas amarelas.


Nem todos os professores de meu curso podem ser considerados sábios. Mas curiosamente, um dos que considero mais inaptos para exercer a profissão foi o que me deu (sem querer) a idéia para este texto. Disse ele um dia que, tentando reconquistar a confiança de uma amiga, a presenteou com um buquê de rosas amarelas. Do alto de sua fleuma, a dita colega respondeu-lhe que rosas amarelas eram um signo da saudade. Frustrado ficou meu professor por errar na simbologia do presente, mas acertou em cheio ao contar-nos esta anedota.

Uma das frases mais memoráveis de Milan Kundera em “A insustentável leveza do ser” diz que “o amor surge de uma metáfora”. Quantos romances, pergunto-me, não se concretizaram por, como meu professor, inaptidão de uma das partes ao se expressar um símbolo? E quantos outros tantos não surgiram de uma má interpretação de outro signo?

Assim como na literatura, é preciso habilidade para ler as metáforas no amor. Infelizmente, são muitos os analfabetos nesse assunto e muitos os que poderiam ter tido melhores chances de uma vida não solitária se lhes fosse obvia a metáfora. Tanto aqueles que não as lêem como também não criam as metáforas.

Tudo requer prática, mas o que esperar de um analfabeto quando um lápis é jogado em suas mãos e lhe pedem para escrever um poema? Há inúmeras possibilidades. Ou ele jogará o lápis fora e fingirá que o assunto não é com ele; ou rabiscará umas meias palavras tortas e totalmente ininteligíveis; ou ainda, para não se sentir excluído, elaborará um discurso incrível e lógico, tentando desviar a atenção de seu analfabetismo para um outro ponto que considere forte.

É obvio que, em todas essas variáveis, o analfabeto falha criticamente em sua tarefa de escrever o poema.

Talvez esse seja o grande problema: os poemas, esse conjuntos malditos de metáforas.

Proponho, assim, uma campanha em prol do texto técnico.

*Próxima postagem: Tiranos de todo o mundo, uni-vos!

**P.S.: depois de temas como Deus e o Amor (sooo girly!), voltarei com a acidez cômica habitual. Prometo.

Chuva

Essa é uma das marcas mais estranhas da minha própria personalidade e admito. Dentre as minhas inúmeras fixações, talvez a mais antiga seja a pela chuva.

Cheiro de terra molhada, água, pingos na janela, vidro embaçado, queda de energia. São memórias que tenho da infância e talvez as mais felizes. E gosto de ter essa conexão, embora 100% fruto da minha imaginação. Todos tem essa necessidade de estar ligados a algo alem de nos. Muitos chamam isso de religião.

Mas é um paralelo interessante. Em “V for Vendetta”, uma das frases que mais me marcaram foram da protagonista logo após adquirir sua liberdade. “God is in the rain”. Nada mais acertado. Talvez seja uma debilidade da minha fé, mas não consigo ver Deus em outro fenômeno que não seja a chuva. O homem aprendeu a controlar tudo. Uma das poucas coisas que restaram foi a chuva. Se nem o homem a controla, que prova maior temos de que Deus esta na chuva? De certa forma ele esta em todo o lugar. Mas aquela sensação “dervixiana” que sentimos (alguns, pelo menos) debaixo da chuva não deixa de ser (por que não?) uma experiência do divino.

Tenho essa conexão com a chuva desde criança. Sempre que fico muito feliz, ou algo muito bom acontece, parece que pelo menos uma fina garoa vem me contemplar. Acho que os grandes dias de minha vida tiveram um cenário acinzentado. Não no sentido gótico da coisa. É como dias frios e quentes. Eu gosto é de chuva.

Ela não é a coisa mais prática do mundo. Experimente ficar mais de 3 horas em reunião completamente ensopada. Nada agradável. Mas essa foi uma chuva besta. Já disse, a Chuva é minha visão de Deus e às vezes Ele tem o papel de me castigar.

Não consigo imaginar algo mais místico do que um banho de chuva. Quando você se sente triste, num dia em que tudo deu errado e uma daquelas belas e congelantes chuvas curitibanas te pega desprevenido sem guarda-chuva. É a hora de abrir um largo sorriso e sentir a roupa encharcada grudar-lhe o corpo. Nada de pior pode acontecer. A chuva veio te dar um abraço. Tudo esta bem agora. Você começa a andar mais devagar, a pisar com gosto nas poças da calcada, olhar pra cima, soltar o cabelo. Talvez seja a maior sensação de liberdade possível.

Fitar a chuva de dentro de casa tem um “que” melancólico, mas a única forma de manter a família no mesmo cômodo conversando é quando a luz cai e há poucas velas. Lembra-me as inúmeras brincadeiras e historias inventadas de quando eu era criança. Naquela época eu era realmente aficionada pela chuva. Bom, na infância, tudo é 10 vezes mais apaixonante e livre.

É loucura, sim. Mas todos tem uma maneira de sentirem-se alem da própria existência. Uns rezam, outros lêem o horóscopo, outros vão a festas.

Eu danço debaixo da chuva.

*Próxima postagem: Rosas Amarelas

**P.S.: talvez essa seja uma das poucas manifestações que me ocorreram sobre a questão da transcendência. Ninguém precisa ser religioso para ter fé. E diferente do que muitos pensam, acreditar não é sinal de fraqueza ou alienação.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Vermelho - parte 2

Depois da minha não tão breve introdução sobre a “teoria do vermelho”, vamos a parte divertida. E é nesse ponto que o vermelho vira carmim. Por n razões, mas o vermelho que abordo agora é o carmim. E ponto final.
Voltando ao vinho (que sou suspeita para falar sobre). Trevas e paixão. Só consigo pensar nessa equação como resultando tirania. Pois veja que coincidência! Não seria o vinho e o carmim as cores oficiais da nobreza européia? A primeira fase de exploração natural brasileira consistia em nada mais nada menos do que adquirir o pau-brasil, principal ingrediente na obtenção do corante carmim, para que pudesse enfeitar as elegantes e invejadas vestimentas de nossa querida nobreza portuguesa (com certeza!).
E agora entremos na simbologia do carmim em especifico. Disse Valentino “Uma mulher de vermelho esta sempre bem-vestida”. Naturalmente não são todas que podem usar vermelho. Apenas rainhas usam vermelho. Apenas rainhas, da segurança de sua tirania, podem usar vermelho. Princesas, em sua passividade, nunca usam vermelho. Leia qualquer conto de fadas. As mais ousadas usam rosa. Para as outras sobram a pureza do branco e a apatia do azul.
Já que mencionamos rainhas, lembremos de Cleópatra, banindo as servas que ousavam usar SUA cor para colorir as unhas. E entrando no terreno da maquiagem, ate metade do século XX nenhuma mulher brasileira (livre ou corajosa o suficiente), passaria batom nos lábios. Passaria carmim.
Indo agora para o divertido mundo das maravilhas de Alice. Certa era a Rainha de Copas ao mandar cortar as cabeças das cartas de paus que haviam plantado rosas brancas no lugar das “rosas cor de carmim”. Como ela viveria num reino em que nem as flores reafirmavam seu poder apenas pelo fato de existirem? Ela certamente seria o Rei de Copas se não o fizesse, tão irrelevante quanto o bobo da corte.
Em Alice através do Espelho, uma curiosa troca. As pecas do xadrez que guiam a historia não são as tradicionais pretas e brancas. Torna-se vermelhas e brancas. A interpretação, cabe a vocês.
Agora para dar um nó na cabeça de todos. Sendo o carmim a cor da tirania, porque foi adotada como a cor da fraternidade durante a Revolução Russa? Lissitzky, com suas colagens construtivistas, explicaria. Alias, mais uma relação curiosa. Por que seriam as cores do construtivismo russo o vermelho, o preto e o branco?
Vou podar minha mente por hora. Qualquer outra relação será muito bem-vinda.
(Eu só faço isso, porque realmente, essa não
é uma cor qualquer.)


*Próxima postagem: Chuva

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Vermelho - parte 1

*Texto sugerido pelo Gato Felix

É quase uma heresia perguntar-me sobre o vermelho. Eu escreveria uma tese de doutorado inteira sobre essa cor e ainda teria assunto. Há tantos espectros a serem abordados que eu resolvi dividir esse texto em duas partes, uma com uma abordagem mais técnica e outra com as relações insanas de minha cabeça relativas ao vermelho.
Iniciando minha abordagem a la “teoria de cores de Itten” vamos explicar de fato o que é uma cor. Cor é luz. Pelo menos a cor que vemos é luz. A cor que aparece em qualquer coisa impressa ou pintada é a cor-pigmento.
O vermelho enquanto luz é puro espectro vermelho. Não é preciso misturar quaisquer raios luminosos para obtermos o vermelho. Ele simplesmente está ali, puro, na natureza. É a cor visível com a maior freqüência de onda, por isso tão usado em sinalizações, proibições, marcas de atenção e etc. E sempre em conjunto com a verde (sua cor complementar), que possui em tudo o oposto. O vermelho é a primeira cor a ser percebida pelo cérebro. Por isso sua larga utilização em advertências.
Em relação ao vermelho pigmento, para ser reproduzido como a luz que vemos é preciso pigmento magenta, amarelo e um pouquinho só de preto. Isso para obtermos o “vermelho ônibus biarticulado”. Quando uma cor é misturada a preto ou branco, mantém sua característica simbólica somada a característica do preto ou do branco.
Nesse ponto, uma observação simbólica interessante. Vermelho (a paixão) misturado ao branco (pureza), resulta no rosa, cor simbolo da feminilidade (se você não é como eu que considera a verdadeira feminilidade, inatingível para a maioria das mulheres, a paixão pura, por favor, eu quero mais opiniões!). Vermelho e preto (trevas) e temos o vinho. E não falarei do vinho agora, porque essa relação é insana demais para essa primeira parte.
Impressionado? É claro que não! Isso está nos livros, com pouquíssimas das minhas relações conspiracionistas. A próxima parte será bem mais interessante. Agora, leitor, o básico, pelo menos, você sabe.


*Próxima postagem: Vermelho – parte 2

Porcelana

Muito além da comum metáfora da fragilidade, existem pessoas que são porcelanas. Não essas porcelanas que achamos igualmente belas em grandes magazines. Falo da verdadeira porcelana. Daquela a qual é dedicada uma sala inteira na Casa Branca.
A verdadeira porcelana é o maior orgulho de seu criador. Não apenas um belo jogo de pratos, mas uma peça de arte, única. E por isso o artesão, quando tiver coragem de colocá-la a venda, só o fará com a plena consciência do comprador. Não é qualquer um que pode ter a verdadeira porcelana. Não apenas financeiramente falando. É preciso berço, pedrigree. Como qualquer comprador de uma Ferrari. Não é qualquer pessoa que entraria na Tiffany’s e pediria pela verdadeira porcelana.
Aquele que se torna o feliz possuidor de uma porcelana tomará o máximo de cuidado com ela. Dificilmente a tocará e raramente a usará. Ela será o seu orgulho e seu tesouro. Ele a exporá feliz para o seleto grupo de amigos entre uma taca de conhaque e outra, e recolocará seu lugar na cristaleira. Seria uma dor imensa ver um único arranhão em sua superfície alva e esmaltada.
Quando finalmente o proprietário resolver usa-la (na presença do Papa, talvez), será um martírio ver os talheres (ainda que de prata) rangendo contra sua cara porcelana. E quando um único prato quebrar-se, dolorosa será a separação de seus cacos. Talvez seja guardado um prato ou outro. Mas nunca terá mais valor a verdadeira porcelana incompleta.
Quanto à porcelana, pouco se sabe o que ela quer. Apesar de igualmente refinada, ela não é um cristal, pelo qual se pode ver através. Ela é opaca, dura e de fragilidade imensurável. Sabe-se que quanto mais brocados, melhor ela será. A faz esquecer seu passado de argila.
Talvez o que queira uma porcelana, além de implorar por não ser quebrada, é ser tocada, usada, e exposta. E é claro, viver para sempre.


*Proxima postagem: Vermelho - parte 1

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Um aviso do gato...

Ola, queridos!
Em breve (muito breve) postagens contendo algumas neuras, metaforas e associacoes bizarras da minha mente...
Me perguntam do Cheshire e porque essa fixacao.
O Cheshire eh tudo.
Ele eh um guia, um conselheiro e ao mesmo tempo uma pedra no sapato. E com uma alma meio cigana. Bateu o vento Norte e lah foi ele! Nada melhor para descrever como sera esse blog. As vezes, quando bater a vontade de escrever, escrevo. Se nao der tambem...
Mas aguardem.

*Proxima postagem: Porcelana