sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Chuva

Essa é uma das marcas mais estranhas da minha própria personalidade e admito. Dentre as minhas inúmeras fixações, talvez a mais antiga seja a pela chuva.

Cheiro de terra molhada, água, pingos na janela, vidro embaçado, queda de energia. São memórias que tenho da infância e talvez as mais felizes. E gosto de ter essa conexão, embora 100% fruto da minha imaginação. Todos tem essa necessidade de estar ligados a algo alem de nos. Muitos chamam isso de religião.

Mas é um paralelo interessante. Em “V for Vendetta”, uma das frases que mais me marcaram foram da protagonista logo após adquirir sua liberdade. “God is in the rain”. Nada mais acertado. Talvez seja uma debilidade da minha fé, mas não consigo ver Deus em outro fenômeno que não seja a chuva. O homem aprendeu a controlar tudo. Uma das poucas coisas que restaram foi a chuva. Se nem o homem a controla, que prova maior temos de que Deus esta na chuva? De certa forma ele esta em todo o lugar. Mas aquela sensação “dervixiana” que sentimos (alguns, pelo menos) debaixo da chuva não deixa de ser (por que não?) uma experiência do divino.

Tenho essa conexão com a chuva desde criança. Sempre que fico muito feliz, ou algo muito bom acontece, parece que pelo menos uma fina garoa vem me contemplar. Acho que os grandes dias de minha vida tiveram um cenário acinzentado. Não no sentido gótico da coisa. É como dias frios e quentes. Eu gosto é de chuva.

Ela não é a coisa mais prática do mundo. Experimente ficar mais de 3 horas em reunião completamente ensopada. Nada agradável. Mas essa foi uma chuva besta. Já disse, a Chuva é minha visão de Deus e às vezes Ele tem o papel de me castigar.

Não consigo imaginar algo mais místico do que um banho de chuva. Quando você se sente triste, num dia em que tudo deu errado e uma daquelas belas e congelantes chuvas curitibanas te pega desprevenido sem guarda-chuva. É a hora de abrir um largo sorriso e sentir a roupa encharcada grudar-lhe o corpo. Nada de pior pode acontecer. A chuva veio te dar um abraço. Tudo esta bem agora. Você começa a andar mais devagar, a pisar com gosto nas poças da calcada, olhar pra cima, soltar o cabelo. Talvez seja a maior sensação de liberdade possível.

Fitar a chuva de dentro de casa tem um “que” melancólico, mas a única forma de manter a família no mesmo cômodo conversando é quando a luz cai e há poucas velas. Lembra-me as inúmeras brincadeiras e historias inventadas de quando eu era criança. Naquela época eu era realmente aficionada pela chuva. Bom, na infância, tudo é 10 vezes mais apaixonante e livre.

É loucura, sim. Mas todos tem uma maneira de sentirem-se alem da própria existência. Uns rezam, outros lêem o horóscopo, outros vão a festas.

Eu danço debaixo da chuva.

*Próxima postagem: Rosas Amarelas

**P.S.: talvez essa seja uma das poucas manifestações que me ocorreram sobre a questão da transcendência. Ninguém precisa ser religioso para ter fé. E diferente do que muitos pensam, acreditar não é sinal de fraqueza ou alienação.

Um comentário:

Anônimo disse...

Quando passamos no vestibular choveu e a Dalva, nossos pais e eu voltamos andando na chuva até a casa dela. Só sei que foi como algo espiritual, quase sobrenatural, como é a chuva. Independente, misteriosa e inesperada, pois podem imaginar que vai acontecer, mas ninguém pode dizer exatamente quando.

Um dia te conto dos meus elementos mágicos.
Hoje choveu, um dia triste premiado por Deus.

Tb amei "Deus está na chuva", acho que não somos tão diferentes...

Cuide-se...