Muito além da comum metáfora da fragilidade, existem pessoas que são porcelanas. Não essas porcelanas que achamos igualmente belas em grandes magazines. Falo da verdadeira porcelana. Daquela a qual é dedicada uma sala inteira na Casa Branca.
A verdadeira porcelana é o maior orgulho de seu criador. Não apenas um belo jogo de pratos, mas uma peça de arte, única. E por isso o artesão, quando tiver coragem de colocá-la a venda, só o fará com a plena consciência do comprador. Não é qualquer um que pode ter a verdadeira porcelana. Não apenas financeiramente falando. É preciso berço, pedrigree. Como qualquer comprador de uma Ferrari. Não é qualquer pessoa que entraria na Tiffany’s e pediria pela verdadeira porcelana.
Aquele que se torna o feliz possuidor de uma porcelana tomará o máximo de cuidado com ela. Dificilmente a tocará e raramente a usará. Ela será o seu orgulho e seu tesouro. Ele a exporá feliz para o seleto grupo de amigos entre uma taca de conhaque e outra, e recolocará seu lugar na cristaleira. Seria uma dor imensa ver um único arranhão em sua superfície alva e esmaltada.
Quando finalmente o proprietário resolver usa-la (na presença do Papa, talvez), será um martírio ver os talheres (ainda que de prata) rangendo contra sua cara porcelana. E quando um único prato quebrar-se, dolorosa será a separação de seus cacos. Talvez seja guardado um prato ou outro. Mas nunca terá mais valor a verdadeira porcelana incompleta.
Quanto à porcelana, pouco se sabe o que ela quer. Apesar de igualmente refinada, ela não é um cristal, pelo qual se pode ver através. Ela é opaca, dura e de fragilidade imensurável. Sabe-se que quanto mais brocados, melhor ela será. A faz esquecer seu passado de argila.
Talvez o que queira uma porcelana, além de implorar por não ser quebrada, é ser tocada, usada, e exposta. E é claro, viver para sempre.
*Proxima postagem: Vermelho - parte 1
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
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