terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Porcelana

Muito além da comum metáfora da fragilidade, existem pessoas que são porcelanas. Não essas porcelanas que achamos igualmente belas em grandes magazines. Falo da verdadeira porcelana. Daquela a qual é dedicada uma sala inteira na Casa Branca.
A verdadeira porcelana é o maior orgulho de seu criador. Não apenas um belo jogo de pratos, mas uma peça de arte, única. E por isso o artesão, quando tiver coragem de colocá-la a venda, só o fará com a plena consciência do comprador. Não é qualquer um que pode ter a verdadeira porcelana. Não apenas financeiramente falando. É preciso berço, pedrigree. Como qualquer comprador de uma Ferrari. Não é qualquer pessoa que entraria na Tiffany’s e pediria pela verdadeira porcelana.
Aquele que se torna o feliz possuidor de uma porcelana tomará o máximo de cuidado com ela. Dificilmente a tocará e raramente a usará. Ela será o seu orgulho e seu tesouro. Ele a exporá feliz para o seleto grupo de amigos entre uma taca de conhaque e outra, e recolocará seu lugar na cristaleira. Seria uma dor imensa ver um único arranhão em sua superfície alva e esmaltada.
Quando finalmente o proprietário resolver usa-la (na presença do Papa, talvez), será um martírio ver os talheres (ainda que de prata) rangendo contra sua cara porcelana. E quando um único prato quebrar-se, dolorosa será a separação de seus cacos. Talvez seja guardado um prato ou outro. Mas nunca terá mais valor a verdadeira porcelana incompleta.
Quanto à porcelana, pouco se sabe o que ela quer. Apesar de igualmente refinada, ela não é um cristal, pelo qual se pode ver através. Ela é opaca, dura e de fragilidade imensurável. Sabe-se que quanto mais brocados, melhor ela será. A faz esquecer seu passado de argila.
Talvez o que queira uma porcelana, além de implorar por não ser quebrada, é ser tocada, usada, e exposta. E é claro, viver para sempre.


*Proxima postagem: Vermelho - parte 1

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